sábado, 2 de maio de 2020

Essa é minha mãe, minha rainha. Ela está segurando você, Sebastião, babando o filho do "Tuim" como papai chamava seu pai Arthur. Não tenho nem palavras para falar da mamãe porque ela está num hospítal muito doentinha e nós estamos sofrendo. Sabe, nós tivemos uma infância pobre. Por isso, a gente só tinha roupa novo no natal. Todo final de ano, mamãe saia com nós prá comprar sapatos numa loja da Praça Tiradentes chamada Sapasso. Prá nós era O acontecimento porque a gente não saía do subúrbio onde morava. Aí esperavamos com ansiedade. Sim, nós éramos 5: eu, Tio Marcelo, Tio Sérgio, Tio Dudu e Tia Naná. aí mamae vestia todo mundo, n´so eramos crianças. Pegava um ônibus em benfica, onde a gente morava. Eu e tio Marcelo eramos os maiores. Entã mamae subia nós noônibus e começava a gritar: "Josinaldo segura Sérgio, Marcelo segura Eduardo, Marcelo senta aqui, prá onde você vai sentar Josinaldo". Isso aos gritos  a gente morria de vergonha. Ai mamãe. Tem um autor Mohamed Choukri, ele é de um pedaço de mundo chamado Argélia, ele tem um livro onde ele diz: "como são lindos o amor e a pobreza". Sim, bebês, faz muitos anos. Mas que saudade. Olha aí a gente chegava no centro do Rio, muita gente muita muita muita. E a gente tinha medo de se perder. Mamão segurava a mão dos pequenos Dudu e Nana e eu e Marcelo ficavamos ali colados na mamãe, a gente não tirava o olho dela, com medo de nos perder. Mamãe parecia maior, ali no meio de muita gente andando com a gente mamãe virava uma giganta, muito muito alta. a gente sabia que ela não ia deixar a gente se perder, ela ia tomar conta da gente. Sabem onde eu tenho aquela mesma sensação de amor e confiança na Mãe? Sabem quando eu rememoro aqueles momentos de crianças indefesas mas confiantes na mãe? Numa festa chamada Círio de Nazaré, na Belém onde nasceu a Bibi. Ali eu vejo uma multidão de muita muita muita gente em volta de uma Mãe só que a mãe de Jesus. E ali a gente se sente criança olhando tempo todo prá Mãe, confiantes de que nada de mal vai nos acontecer. Neste dia que eu escrevo prá vocês, muita gente perdeu a mãe naquela doença que falei prpa vocês aki em Manaus. tem muita gente triste se sentindo indefesa. Mas vocês tem Mãe Carol e Mãe Juju. Quem sabe, Bibi e Mariana, quando vocês lerem isso aqui, já não sejam mães vocês também?
Mas ei que em junho de 2020, mamãe foi pra junto de meu pai e deixou os filhos na maior tristeza

Esses são meus tios, netos de Madrinha Chiquinha e Padrinho aleixo, irmãos de papai Joaquim. Galhos fortes, cheios de filhos e netos também. São Tio Jonas, Tio Joca e Tio Tota. Olhem como saõ bonitos. Os Aleixo são fechados e vaidosos, como papai são abertos e generosos. Homens bons. São galhos dessa grande árvore....

Este da foto ´s o bisavô de vocês, o avô de seus pais e suas mães. Vovô Joaquim era sagitariano, como tal ele era o centro da festa: alegre, solar, bem vestido, vaidoso, apegado à família. Gostav de comer bem, vestir bem. Era implicante, vivia implicando com a vovó Lourdes. Foi peõa de obra, vigia noturno no prédio onde meu padrinho Jonas e minha madrinha Magui moravam. Papai era só generosidade, dava a roupa do corpo prás pessoas que precisavam. se preocupava com todo mundo. Papai foi reservado com os filhos mas se derretia com os netos. Quando Gustavo nascei nossa, ele riu muito de alegria. Quando Juju nasceu papai renasceu naquela criança. Vejam como ele é bem vestido, olha o chapéu dele. Meu papai. Morreu faz anos e até hoje, sozinho converso com ele, e choro de saudade dele. Os índios apurinã falam em troncos e galhos. Os velhos e mortos são o galho forte dum tronco velho. para eles, a família é como uma árvore na floresta: grande, com tronco grosso, com muitos galhos. Desse tronco nascem os galhos e os antigos são galho forte. Eu sou galho mas galho fraco e vocês são os galhinhos dessa grande familia que se uniu a familia de sua avó Iara.

Eu me lembro quando eu tinha uns cinco anos. Não lembro. Nós chegamos da cidade do interior onde moravamos depois de 3 dias de viagem num ônibus chamado Breda. a gente chegou num lugar chamado São Cristóvão, um bairro do Rio de Janeiro onde até hoje tem uma feira lá. A Feira dos Paraíbas, que era como chamavam o povo que vinha do nordeste tentar a vida na cidade do Rio de Janeiro. Lembro que sai correndo atrás dum gato. Fomos morar numa favela chamada Nova Holanda, que existe até hoje, num lugar chamado Maré. Moramos na Rua J numero 49. A cidade onde eu nasci era muito pequena. Rio de Janeiro é uma cidade grande! Uma das lembranças mais velhas da minha vida foi quando, não sei porque, de noite papai, o bisavô de vocês, me levou pra esperar algué com ele numa avenida chamada Avenida Brasil. Tinha um muro na entrada da favela, era de noite e quando a gente saiu detrás do muro foi o maior medo da minha vida. Eu vi uma multidão de luzes, muito barulho, muita gente. Eu nunca tinha visto aquiol. Senti muito medo me encostei no muro chorando e dizia: "painho, o que é isso, o que são essas coisas painho..." Papai morria de rir com aquele riso alto que sinto muita saudade. Pegou na minha mão me puxava e dizia: "Tenha medo não meu filho, é a variante". variante era como, naquele tempo, as pessoas chamavam uma avenida grande e movimentada. Mas eu não sapia encostado no muro. Eu só via aqueles carros todos. Lembro um fusca (um tipo de carro), vindo na minha direção. Eu não sabia o que era aquilo. Mas papai ria e acho que ele me botou no colo pra eu me acalmar. Lembro que eu enterrei a cara no ombro dele. Mais não lembro não. Mamãe sempre foi uma mulher bonita. Mamãe era enégica, manteve a familia unida porque nós moramos num lugar com muitos bandidos e se nao fosse eles dois, o que seria da gente?  Amem muito seu pai e sua mãe, quando voces tiverem minha idade, não percam a oportunidade de cobrir os dois de beijos. mamãe está doente, está no hospital. Mamãe é engraçada, ela fala cada coisa. Eu sou um pouco como a inha m'a A gente vai ficando velho e as lembranças do passado vão voltando, voltando. Vou botar uma foto de papai e mamãe, é que meu computador está uma merda...

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Eu moro e trabalho no meio duma grande floresta. Muito misteriosa a floresta. Chama-se floresta amazônica e é muito linda. Suas árvores são muito juntinhas e elas crescem muito. Tudo aqui é grande, menos o povo que ele é baixinho. E tem os rios. São muito grandes e muito largos. Tem muito bicho também. Os nomes deles são muitos: macacos, umas gatas grandes que usam um casaco amarelo com manchinhas pretas chamadas onças, as preguiças que gostam de dormir abraçadas com a gente. Os macacos me lembram Sebastião e Gabriel - tem macaco barulhento e tem macaco quieto. E tem um bicho chamado cobra. Tem muito passarinho. Rs. Eu to escrevendo pra crianças, mas vcs já vão ser grandes quando lerem isso. Há muuuitos anos atrás uma velhinha dum povo chamado chamado Índios Asurini, muito tempo quando eu comecei a andar aqui pela Amazonia olhou pra mim e disse. O senhor vai ter tantos filhos...Naquela época eu só tinha as mães e o pai de vocês. e seu tio Leo. Eu disse  "mas mãe, eu já tenho quatro vou ter mais?" "Vai" ela falou. "Porra", pensei, "mais criança? Iara vai ficar doida". depois, pensando bem, vocês são meus filhos e o que a aquela velhinha me disse se cumpriu. Ainda pode vir mais né? Então eu tava falando daqui. Vim pra cá por acaso há uns 18 anos, vovê estava sem trabalho e uns doidos lá de uma cidade chamada Brasilia, me chamaram prá trabalhar aki. Aí eu vim. Ai olha que coisa legal babies: eu amo demais vocês e seus pais, mas amo demais isso aqui. Você vão vir aqui, vão conhecer. Só Gustavinho conhece aqui porque ele já foi muito pruma Amazônia chamada Pará. Aqui é muito bom: os bichos conversam com a gente, existem povos muito antigos que falam línguas esquisitas e, quando a gente chama, as coisas que a gente não vê com os olhos aparecem pra falar com nós....

Eu tinha dito que nasci muito longe.
Meu pai e minha mae se casaram e trouxeram eu seu tio Marcelo pro Rio de Janeiro. papai já tinha vindo antes prá cá. Era um tempo em que as pessoas vinham de longe trabalhar onde tinha trabalho e nessa veio papai.
Papai morou num lugar chamado Praça 11.
era engraçado é que papai morou perto dum lugar chamado Zona que vocês vão perguntar ao pai de vocês o que é ta bom? Morou num casarão num quartinho bem apertado com uns primos, o papai.
Papai e mamãe eram primos. Meus avôs Sebastião e Cícero eram irmãos então eles eram primos. Grande parte das irmãs de mamãe se casaram com primos.
O pai de papai era moreno e magro. Seu bisavô era caladão. Eu tenho dele uma coisa: eu gosto de andar pelos mesmos lugares, sento na mesma mesa, no ônibus sento no mesmo lugar, ou seja, sou previsível.
Essa parte da nossa família é muito velha.
O pai dos meus avôs era chamado Manuel, ou padrinho Aleixo. Ele era escuro. Aí ele gostou de minha bisavó, chamada Francisca ou Madrinha Chiquinha mas ela era branca. A familia dela não queria que eles namorassem e foi uma confusão muito grande.
Um dia meu bisavô pegou Madrinha Chiquinha e fugiu com ela. O pai dela, com ravia do atrevimento daquele preto mandou que os filhos fossem atrás deles, toruxessem minha bisavó e matassem meu bisavô:
"Aquele preto folgado, eu vou matar aquele preto, roubou Francisca, vocês vão atrás deles, vão dar uma piza (surra) naquele preto sujo e matar ele. Francisca vocês trazem que eu me vejo com ela". Ocorre que o pai de minha bisavó tinha muito amor por aquela filha que e estava muito triste sentindo muito ódio, muita raiva. A mulher dele, rezava pra Nossa senhora da Conceição acalmar o marido.
Ainda era noite fechada quando os irmãos de minha bisavó saíram pelo mundo atrás deles. "Painho, falou um dos irmãos de Madrinha Chiquinha, eles estão muito longe já, é bom nós sair já". "Culpa de sua mãe disse o pai de minha Madrinha Chiquinha". A mãe de Madrinha Chiquinha ouvia do quarto nervosa chorando e rezando o terço. Ela tinha deixado a filha ir com a outra filha pra casa da irmã e nessa Madrinha Chiquinha fugiu com Padrinho Aleixo. A filha que tinha coberto a fuga de Madrinha Chiquinha se chamava Luzia e tinha levado uma piza do pai de minha bisavó Madrinha Chiquinha.
Naquela madrugada os irmãos de Madrinha Chiquinha  montaram em seus cavalos e foram embora noite adentro pra trazer a irmã de volta e matar akele preto.

Minhas crianças

Minhas crianças, filhos e filhas de minhas crianças...
Oi tudo bem? Eu sou seu avô. Meu nome é Josinaldo, mas só me chamam de Josi. Meu paizinho se chamava Joaquim Aleixo e minha mãezinha se chama Lourdes. Meu paizinho já foi embora pro outro mundo que tem em cima desse mundo, minha mãezinha ainda alegra minha vida.
Eu nasci num pedaço de mundo chamado serra Branca, que fica dentro dum pedaço de mundo chamado Paraíba que fica dentro dum pedação de mundo chamado Brasil. Mas eu sou carioca, o Rio de Janeiro é minha cidade também. Uma me pariu outra me criou.
Eu e sua vó Iara somos seus avós.
Antigamente eu tinha um pedaço da internet onde escrevia pra seus primos Gustavinho e Gabriela Bibi, mas perdi aquele negocio lá.
Eu moro numa cidade chamada Manaus num pedaço de mundo chamado Amazonas num pedação de mundo chamado Brasil.
Meus amores tem uma doença muito ruim pelo mundo. Eu tô em Manaus e a cidade está sofrendo com a doença então eu pensei. E seu eu morrer? Bibi e Gustavinho me conhecem mas e meus bebês? Joaquim, Mariana, Gabriel e Sebastião?
Então vou escrever um pouquinho aqui pra vcs ta bem? O que nao puder não posso. depois vocês imaginam o resto tá bem?